domingo, 28 de dezembro de 2014

Insetos interiores - O Teatro Mágico


Notas de um observador:
Existem milhões de insetos almáticos.
Alguns rastejam, outros poucos correm.
A maioria prefere não se mexer.
Grandes e pequenos.
Redondos e triangulares,
de qualquer forma são todos quadrados.
Ovários, oriundos de variadas raízes radicais.
Ramificações da célula rainha.
Desprovidos de asas,
não voam nem nadam.
Possuem vida, mas não sabem.
Duvidam do corpo,
queimam seus filmes e suas floras.
Para eles, tudo é capaz de ser impossível.
Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência.
Regurgitam assuntos e sintomas.
Avoam e bebericam sobre as fezes.
Descansam sobre a carniça,
repousam-se no lodo,
lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são.
Assim são os insetos interiores.

A futilidade encarrega se de "mais tralos'.
São inóspitos, nocivos, poluentes.
Abusam da própria miséria intelectual,
das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia.
O veneno se refugia no espelho do armário.
Antes do sono, o beijo de boa noite.
Antes da insônia, a benção.

Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa.
A família.
São soníferos, chagas sem curas.
Não reproduzem, são inférteis, infiéis, "infértebrados".
Arrancam as cabeças de suas fêmeas,
Cortam os troncos,
Urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos.
Esquecem-se de si.
Pontuam-se



A cria que se crie, a dona que se dane.
Os insetos interiores proliferam-se assim:
Na morte e na merda.

Seus sintomas?
Um calor gélido e ansiado na boca do estômago.
Uma sensação de: o que é mesmo que se passa?
Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto.
É mais fácil aturar a tristeza generalizada
Que romper com as correntes de preguiça e mal dizer.
Silenciam-se no holocausto da subserviência
O organismo não se anima mais.
E assim, animais ou menos assim,
Descompromissados com o próprio rumo.
Desprovidos de caráter e coragem,
Desatentos ao próprio tesouro...caem.
Desacordam todos os dias,
não mensuram suas perdas e imposturas.
Não almejam, não alma, já não mais amor.
Assim são os insetos interiores.

*Letra retirada do site: "http://letras.mus.br/o-teatro-magico/1587904/"

Holocausto Brasileiro - Daniela Arbex


"Neste livro-reportagem fundamental, a premiada jornalista Daniela Arbex resgata do esquecimento um dos capítulos mais macabros da nossa história: a barbárie e a desumanidade praticadas, durante a maior parte do século XX, no maior hospício do Brasil, conhecido por Colônia, situado na cidade mineira de Barbacena. Ao fazê-lo, a autora traz à luz um genocídio cometido, sistematicamente, pelo Estado brasileiro, com a conivência de médicos, funcionários e também da população, pois nenhuma violação dos direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto tempo sem a omissão da sociedade.
Pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os muros da Colônia. Em sua maioria, haviam sido internadas à força. Cerca de 70% não tinham diagnóstico de doença mental. Eram epiléticos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém com mais poder. Eram meninas grávidas violentadas por seus patrões, esposas confinadas para que o marido pudesse morar com a amante, filhas de fazendeiros que perderam a virgindade antes do casamento, homens e mulheres que haviam extraviado seus documentos. Alguns eram apenas tímidos. Pelo menos 33 eram crianças."
* Descrição do site: "http://www.saraiva.com.br/holocausto-brasileiro-vida-genocidio-e-60-mil-mortes-no-maior-hospicio-do-brasil-4896352.html"


Este foi um dos livros mais tristes e revoltantes que já li. Abordando sobre um fato horrível da história brasileira, a jornalista Daniela Arbex nos mostra relatos surpreendentes sobre o que ocorria dentro dos portões do Hospital Psiquiátrico de Barbacena - Minas Gerais, conhecido como Colônia. Foi angustiante conhecer o sofrimento que tantas pessoas, muitas que nem doentes mentais eram, passaram nesse lugar que parecia mais com um campo de concentração nazista. 
Tratamento com choques, frio, vergonha, fome e o esquecimento por parte da sociedade fez eu perceber que a frase do famoso filósofo francês Jean Paul Sartre, "O inferno são os outros", toma proporções imensas ao se castigar pessoas que não entravam nos padrões da sociedade e, destarte deveriam ser segregadas do convívio das pessoas tidas como "normais", pois deveria se primar pela manutenção dos velhos e bons costumes, o que não seguisse tal premissa não deveria existir, ou seja, deveria ser um problema levado para debaixo dos tapetes.
Um documentário que mostra bem qual era a real situação das pessoas encarceradas nesse inferno foi o "Em nome da razão". Vale a pena ler esse livro.


A Pequena Sofia - Els Pelgrom



A Pequena Sofia



Escrito por um holandesa, que durante uma parte da sua vida foi professora em uma escola para alunos especiais, este livro me marcou de várias formas. Dado por meu pai quando minha irmã e eu ainda éramos crianças, conta uma história encantadora de uma menina doente que, devido a tal situação, acaba ficando muito tempo em seu quarto. Esta condição de saúde, porém, não a impede de viver várias aventuras com seus amados bonecos e seu gato, chamado Terror. É uma leitura leve e muito prazerosa, a qual também não deixa de trazer várias lições, pois todas as aventuras vividas por Sofia têm um propósito: mostrar para a menina o que a vida tem a oferecer.  Vale a pena conferir!


sábado, 27 de dezembro de 2014

Florbela Espanca


Com tantas riquezas
por que me sentir pobre?
e os meus versos e a minha
alma, e os meus sonhos,
e os montes, e as rosas,
e a canção dos sapos
nas ervas úmidas,
e a minha charneca
alentejada,
e os olivais vestidos de
Gata Borralheira,
e o assombro dos crepúsculos,
e o murmúrio das noites...
então isso não é nada?

* Trecho retirado do livro "O dominó preto"

Prisão de cristal - Diego de Souza Santana


Sempre sonhaste em poder sair de tua prisão de cristal.
Enquanto as paredes de teu quarto riem de ti.
Tão suscetível as obras do bem e do mal.
Teu silêncio é uma forma de fugir.

Hoje as barras que fazem tua prisão são o medo de falhar.
Tão minúsculos estão os pedaços de sua essência.
São invisíveis, são um disfarce, com que mobiliaram teu lar.
Levando-te a um estado de sã inconsciência.

Deixa de se preocupar pelo que um dia deixastes para trás.
Deixa de esperar que o tempo acalme os infortúnios teus.
Teus olhos tristes são resultado de sua fortaleza ineficaz.
A ausência que causa um adeus.

Não te acomode e continue caminhando.
Deixa de chorar, tuas lágrimas vão te afogar.
Desenterre teus sonhos perdidos e continue lutando.
E se a vida te pisar, desembrulhe um sorriso e volte a te levantar.

* Poesia retirada de livro "3° Prêmio Literário de Poesia Amigos do Livro"

Heterogêneo - Emanoel Messias Ferreira


Sou triste,
mas me fantasio de alegria.
E, por viver em desarmonia,
teço sorrisos de poucos segundos.

Sou alegre,
mas me fantasio de tristeza.
E, por viver em pequeneza,
teço lágrimas de pouco sentido.

Sou um e dois, porque três já não posso ser:
como vida e morte podem também ser 
a razão de viver e morrer?

Sou ambos, estou fixo e também mudando;
se não fosse mistura, variedade pura,
não seria humano.

* Poesia retirada de livro "3° Prêmio Literário de Poesia Amigos do Livro"

Enigmáticas feridas... - Evandro Luis Mezadri



Alcova fria em solidão provocativa
A mente inerte, pairando em redoma aflitiva
A face bruxuleante e suada pelo escarro da lâmpada rutilante
O amor bandido pela última vez correspondido
O fígado dilacerado pelo excesso de orgias desregradas
A idade pouca, reflete louca, à porta do crepúsculo da vida
As raras alegrias findadas em passados de espasmos embriagados
Trêmulas mãos procurando um sólido corrimão
para a alma equilibrar a tristeza
Cigarros chorando a falta do beijo incendiário
Um livro de Drummond empoeirado no canto da estante
A televisão dialogando com as pútridas baratas
Gotas paranoicas da pia branca ferindo o copo abandonado
O olhar vagando em campos de espinho
molhados por um orvalho sombrio
A brisa trazendo um silêncio inocente
e momentâneo das ruas
Janela fechadas impedindo a entrada da noite enluarada
Vozes delirantes brotando das paredes sufocantes
Um instinto mórbido pairando no cérebro confuso
O revólver sacado no desespero consolador
Dois tiros no peito e o último respiro sofredor
O cristo de braços abertos derrama uma lágrima
na cama cálida pelo sangue
que a encobre de paz pálida
E os amigos como eu,
egoístas e caprichosos,
esperavam ao menos uma carta
com letras tremidas,
como se isso explicasse,
suas enigmáticas feridas...

* Poesia retirada de livro "3° Prêmio Literário de Poesia Amigos do Livro"

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O amor nos tempos do cólera - Gabriel García Márquez

 "Com ela aprendeu Florentino Ariza o que já padecera muitas vezes sem saber: pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma. Solitário entre a multidão do cais, dissera a si mesmo com um toque de raiva:"o coração tem mais quartos que uma pensão de putas". Estava banhado em lágrimas com a dor dos adeuses. Contudo, mal desaparecera o navio na linha do horizonte e a lembrança de Fermina Daza tinha voltado a ocupar seu espaço total."


"O amor nos tempos do cólera" foi o primeiro livro que li de Gabriel García Márquez e foi paixão à primeira vista. É um livro com personagens cativantes, engraçados e ao mesmo tempo com reflexões interessantes. Fermina Daza e Florentino Ariza me encantaram muito com suas personalidades fortes e marcantes. Ri muuuuito, principalmente, com as aventuras amorosas de Florentino, a que mais me fez dar gargalhadas foi a deste personagem com Sara Noriega, pois esta possuía um gato que os arranhava em pleno ato de amor, cena que, se não me engano, também é retratado no filme que recria a história do livro. 
Outra coisa que me estimulou ler o livro foi a dica presente neste blog: http://mayroses.wordpress.com/2011/09/04/cinquenta-e-um-anos-nove-meses-e-quatro-dias-de-espera/ . Foi por causa dele que acabei comprando e me apaixonando pelo livro "A mulher habitada".

Vale a pena dar uma lida nesse livro genial!

Aqui vai o trailer do filme, o qual também apreciei, mas prefiro sempre ler o livro e criar minhas próprias imagens das cenas narradas.


Rod Stewart - Sailing


Música que faz minha mãe começar a cantar em uma língua muito estranha, a qual presumo ser irmã distante do inglês. KKKKK


Nostalgia...

Quando bate uma vontade dilacerante de rever uma pessoa especial que passou, como uma doce brisa, por minha vida. E, instantaneamente, me vejo reescrevendo mentalmente o momento crucial em que precisei dizer adeus.



The Old Ways

The thundering waves are calling me home, home to you
The pounding sea is calling me home, home to you

On a dark new year's night
On the west coast of Clare
I heard your voice singing
Your eyes danced the song
Your hands played the tune
T'was a vision before me.

We left the music behind and the dance carried on
As we stole away to the seashore
We smelt the brine, felt the wind in our hair
And with sadness you paused.

Suddenly I knew that you'd have to go
Your world was not mine, your eyes told me so
Yet it was there I felt the crossroads of time
And I wondered why.

As we cast our gaze on the tumbling sea
A vision came o'er me
Of thundering hooves and beating wings
In clouds above.

As you turned to go I heard you call my name,
You were like a bird in a cage spreading its wings to fly
"The old ways are lost," you sang as you flew
And I wondered why.

Tradução:

Os Velhos Costumes

As ondas trovejantes estão me chamando para casa, casa para você
O mar truculento está me chamando para casa, casa para você

Em uma escura noite de ano novo
Sobre a costa Oeste de Clare
Eu ouvi sua voz cantando
Seus olhos dançaram a canção
Suas mãos tocaram a melodia
Foi uma visão diante de mim

Nós deixamos a música para trás e a dança prosseguiu
Conforme saíamos às escondidas para a margem do mar
Nós cheiramos a água salgada, sentimos o vento em nossos cabelos
E com tristeza você hesitou

Repentinamente soube que você teria de ir
Seu mundo não era meu, seus olhos assim me disseram
Ainda agora isto estava aqui, senti as encruzilhadas do tempo
E eu quis saber o motivo

Enquanto lançávamos nosso olhar fixo nas cambalhotas do mar
Uma visão surgiu diante de mim
Sobre causas trovejantes e asas batendo
Nas nuvens acima

Enquanto você virou-se para ir ouvi-o chamar meu nome
Você foi como um pássaro numa gaiola, batendo asas para voar
"Os velhos costumes estão perdidos", você cantou conforme voou
E eu quis saber o motivo.

*Tradução do site: http://letras.mus.br/loreena-mckennitt/25256/traducao.html


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

À canseira da vida humana - Gregório de Matos

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.


O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.


Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.


O prudente Varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo em mar de enganos
Ser louco c’os demais, que só, sisudo.

Vários efeitos de amor - Lope de Vega

Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e corajoso;


não ter fora do bem centro e repouso, 
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;


virar o rosto a um claro desengano;
beber veneno por licor suave;
esquecer o proveito, amar o dano;


acreditar que o céu no inferno cabe,
dar a vida e a alma a desilusões,
isto é amor: quem provou bem sabe.

Percy Bysshe Shelley

 

"Man is of soul and body, formed for deeds
Of high resolve; on fancy's boldest wing
To soar unwearied, fearlessly to turn
The keenest pangs to peacefulness, and taste
The joys which mingled sense and spirit yield;
Or he is formed for abjectness and woe,
To grovel on the dunghill of his fears,
To shrink at every sound, to quench the flame
Of natural love in sensualism, to know
That hour as blest when on his worthless days
The frozen hand of death shall set its seal,
Yet fear the cure, though hating the disease.
The one is man that shall hereafter be;
The other, man as vice has made him now."

Tradução
O homem é de corpo e alma formado para grandes
Feitos; para, nas asas da mais ousada fantasia,
Voar infatigavelmente, transformando, impávido,
Em paz os mais cruéis sofrimentos e experimentando
Os prazeres do espírito e dos sentidos;

Ou, então é formado para abjeção e a desgraça,
Para rastejar no grilhão dos terrores,

Estremecendo a cada som, apagando com o
Sensualismo a chama do amor natural, abençoando

 A hora em que a gélida mão da morte
Lhe imporá o selo fatal,
E temendo ao mesmo tempo a cura, conquanto odiando o mal.

O primeiro é o homem como há de ser um dia,
O segundo, o homem tal como o tornou o mal.

*Trecho retirado do livro A Lei do Triunfo

A Lei do Triunfo - Napoleon Hill

"Quando a aurora da inteligência se espalhar sobre o horizonte do progresso humano e a ignorância e a superstição tiverem deixado as suas últimas pegadas nas areias do tempo, será anotado, no último capítulo do livro que registra os crimes dos homens, que seu pecado mais grave foi a intolerância.

A intolerância mais cruel nasce dos preconceitos religiosos, raciais e econômicos, e das diferenças de opinião. Por quanto tempo nós, os pobres mortais, viveremos ainda sem compreender que é loucura procurar destruir um ou outro, unicamente por diferença de crenças religiosas e tendências raciais?

Nossa vida na terra é apenas um breve momento. Como a luz de uma vela, ardemos e brilhamos por um instante, e logo em seguida nos extinguimos. Por que não podemos aprender a viver esse momento de maneira que, ao chegar a caravana da morte, anunciando que a visita está finda, possamos dobrar as nossas tendas e partir para o grande mistério, sem medo e sem temor?

Espero não encontrar judeus nem pagãos, católicos nem protestantes, alemães, ingleses ou franceses, quando atravessar a barreira para o outro lado. Espero encontrar apenas almas irmãs, sem distinção de credo, raça ou cor. Quero então ter terminado a luta contra a intolerância, a fim de descansar em paz por toda a eternidade."

Lilly Wood & The Prick - Prayer in C

Yeah, you never said a word
You didn't send me no letter
Don't think I could forgive you
See, our world is slowly dying
I'm not wasting no more time
Don't think I could believe you

Yeah, you never said a word
You didn't send me no letter
Don't think I could forgive you
See, our world is slowly dying
I'm not wasting no more time
Don't think I could believe you

Yeah, our hands will get more wrinkled
And our hair will be grey
Don't think I could forgive you
And see the children are starving
And their houses were destroyed
Don't think they could forgive you

Hey, when seas will cover lands
And when men will be no more
Don't think you can forgive you
Yeah, when there'll just be silence
And when life will be over
Don't think you will forgive you

Cem anos de solidão!

Um dos trechos que mais gosto do livro:

"Pensava que antigamente, quando Deus não fazia com os meses e os anos as mesmas trapaças que faziam os turcos ao medir uma jarda de percal, as coisas eram diferentes. Agora não apenas as crianças cresciam mais depressa, mas até os sentimentos evoluíam de outro modo. Nem bem Remedios, a bela, subira ao céu de corpo e alma, já Fernanda, sem consideração, andava resmungando pelos cantos que ela levara os lençóis. Nem bem haviam esfriado os corpos dos Aurelianos nas tumbas e já Aureliano Segundo tinha outra vez a casa tomada, cheia de bêbados que tocavam acordeão e se encharcavam de champanha, como se não tivessem morrido cristãos e sim cachorros, e como se aquela casa de loucos, que tantas dores de cabeça e tantos animaizinhos de caramelo tinha custado, estivesse predestinada a se converter numa lixeira de perdição. Lembrando-se destas coisas enquanto aprontavam o baú de José Arcadio, Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera que engolir durante um século inteiro de conformismo.
— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido
picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê?
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse."

Ops!!!





Merry Christmas!!!


Você está quieta, pensando na vida, quando de repente a pessoa da qual menos se espera algo começa uma conversa contigo e solta no ar, como quem não quer nada, "sabia que eu gosto de você?". Você solta o celular, instrumento transmissor da bomba, e pensa "onde eu estava quando isso aconteceu?". Vem então uma vontade insana de rir da vida, pois percebe-se o quão estúpido é pensar que o mundo gira apenas em uma direção. "Minha querida, não me subestime, sempre serei capaz de te surpreender..." é o sopro que a vida larga em seu ouvido em meio a gargalhadas. Como noites de natal podem ser inesquecíveis!!!!