domingo, 4 de outubro de 2015

Aftermath


Serenata

Repara na canção, a canção é tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.

O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara na canção, a canção é tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.


Repara na canção, a canção é tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.


Cecília Meireles

TIMIDEZ



Basta-me um pequeno gesto
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

Epigrama nº 2


És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Fôste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas tôdas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste. 

Cecília Meireles

Cecília Meireles