domingo, 4 de outubro de 2015

Aftermath


Serenata

Repara na canção, a canção é tardia
que timidamente se eleva,
num arrulho de fonte fria.

O orvalho treme sobre a treva
e o sonho da noite procura
a voz que o vento abraça e leva.

Repara na canção, a canção é tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.

É tão triste, mas tão perfeito,
o movimento em que murmura,
como o do coração no peito.


Repara na canção, a canção é tardia
que por sobre o teu nome, apenas,
desenha a sua melodia.


Cecília Meireles

TIMIDEZ



Basta-me um pequeno gesto
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.

Cecília Meireles

Epigrama nº 2


És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Fôste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas tôdas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste. 

Cecília Meireles

Cecília Meireles

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Epicuro

Só há um caminho para a felicidade. Não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade.

ALVARES DE AZEVEDO

SAUDADES

' Tis vain to struggle - let me perish young
BYRON

Foi por ti que num sonho de ventura
A flor da mocidade consumi...
E às primaveras disse adeus tão cedo
E na idade do amor envelheci!

Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...

De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte anos!... sem viver um só momento!

Contudo, no passado uma esperança
Tanto amor e ventura prometia...
E uma virgem tão doce, tão divina,
Nos sonhos junto a mim adormecia!

Quando eu lia com ela... e no romance
Suspirava melhor ardente nota...
E Jocelyn sonhava com Laurence
Ou Werther se morria por Carlota...

Eu sentia a tremer e a transluzir-lhe
Nos olhos negros a alma inocentinha...
E uma furtiva lágrima rolando
Da face dela umedecer a minha!

E quantas vezes o luar tardio
Não viu nossos amores inocentes?
Não embalou-se da morena virgem
No suspirar, nos cânticos ardentes?

E quantas vezes não dormi sonhando
Eterno amor, eternas as venturas...
E que o céu ia abrir-se... e entre os anjos
Eu ia despertar em noites puras?

Foi esse o amor primeiro! requeimou-me
As artérias febris de juventude,
Acordou-me dos sonhos da existência
Na harmonia primeira do alaúde.

...

Meu Deus! e quantas eu amei... Contudo
Das noites voluptuosas da existência
Só restam-me saudades dessas horas
Que iluminou tua alma d'inocência.

Foram três noites só... três noites belas
De lua e de verão, no val saudoso...
Que eu pensava existir... sentindo o peito
Sobre teu coração morrer de gozo.

E por três noites padeci três anos,
Na vida cheia de saudade infinda...
Três anos de esperança e de martírio...
Três anos de sofrer - e espero ainda!
A ti se ergueram meus doridos versos,
Reflexos sem calor de um sol intenso,
Votei-os à imagem dos amores
Pra velá-la nos sonhos como incenso.

Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,
Tantas noites de febre e d'esperança...
Mas hoje o coração parado e frio,
Do meu peito no túmulo descansa.

Pálida sombra dos amores santos!
Passa quando eu morrer no meu jazigo,
Ajoelha ao luar e entoa um canto...
Que lá na morte eu sonharei contigo.

sábado, 2 de maio de 2015

Skylar Grey - Invisible


"Here inside, my quiet heart
You cannot hear, my cries for help
I tried everything, to make them see me
But every one, sees what I can't be

Even when I'm walking on a wire
Even when I set myself on fire
Why do I always feel invisible, invisible
Everyday I try to look my best
Even though inside I'm such a mess
Why do I always feel invisible, invisible

                                       Sometimes when I'm alone
I pretend that I'm a queen
It's almost believable"

domingo, 8 de março de 2015

Torn - Natalie Imbruglia

"Illusion never changed
Into something real
I'm wide awake and I can see
The perfect sky is torn
You're a little late
I'm already torn"


Ainda ontem pensava que não era - Khalil Gibran

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:

"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"

Nana



Away from the sun - 3 Doors Down


O futuro da caligrafia na era digital


*http://pt.euronews.com/2015/02/27/o-futuro-da-caligrafia-na-era-digital/#share-2437228

A Tempestade - Khalil Gibran



O Pássaro e o homem tem essências diferentes.
O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas;
o pássaro vive segundo a lei universal que faz girar os mundos.
Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra.
Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos.
Muitos levantam a cabeça acima dos montes;
mas sua alma jaz nas trevas das cavernas.
A civilização é uma arvore idosa e carcomida,
cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas
são a infelicidade e o desassossego.
Deus criou os corpos para serem os templos das almas.
Devemos cuidar desses templos para que sejam
dignos da divindade que neles mora.
Procurei a solidão para fugir dos homens, de suas leis,
de suas tradições e de seu barulho.
Os endinheirados pensam que o sol e a lua e as estrelas se levantam
dos seus cofres e se deitam nos seus bolsos.
Os políticos enchem os olhos dos povos com poeira
dourada e seus ouvidos com falsas promessas.
Os sacerdotes aconselham os outros,
mas não aconselham a si mesmos,
e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos.
Vã é a civilização. E tudo o que está nela é vão.
As descobertas e invenções nada são senão brinquedos
com a mente se diverte no seu tédio.
Cortar as distâncias, nivelar as montanhas,
vencer os mares, tudo isso não passa de
aparências enganadoras, que não alimentam o
coração e nem elevam a alma.
Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ciências e artes,
nada são senão cadeias douradas com os quais o homem
se acorrenta, deslumbrados com seu brilho e tilintar.
São os fios da tela que o homem tece desde o inicio
do tempo sem saber que, quando terminar sua obra,
terá construído a prisão dentro da qual ficará preso.
Uma coisa só merece nosso amor e nossa dedicação, uma coisa só...
É o despertar de algo no fundo dos fundos da alma.
Quem o sente não o pode expressar em palavras.
E quem não o sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras.
Faço votos para que aprendas a amar as tempestades em vez de fugir delas. 

High Hopes - Kodaline


domingo, 1 de fevereiro de 2015

INVEJA - SANDY E JUNIOR


O TESOURO DE BRESA - MALBA TAHAN



O TESOURO DE BRESA

Conta-se que houve, outrora, na Babilônia - a famosa cidade dos Jardins Suspensos - um pobre e modesto Alfaiate, chamado Enedim. Homem inteligente e trabalhador, que, por suas boas qualidades e amor no coração, era muito querido no bairro em que morava. Enedim passava o dia inteiro, de manhã à noite, cortando, costurando e preparando as roupas de seus numerosos fregueses, e, embora, muito pobre, não perdia a esperança de vir a ser muito rico, senhor de muitos Palácios e grandes tesouros.
Como conquistar, porém, essa tão ambicionada riqueza? - pensava o mísero alfaiate, passando e repassando a agulha grossa de seu ofício - Como descobrir um desses famosos tesouros que se acham escondidos na terra ou perdidos nas profundezas do mar? Ouvira contar, em palestra com estrangeiros vindos do Egito, da Síria e da Grécia, histórias prodigiosas de aventureiros que haviam topado com cavernas imensas, cheias de ouro... Grutas profundas crivadas de brilhantes... Caixas pesadíssimas a transbordar de pérolas. E não poderia ele, à semelhança desses aventureiros felizes, descobrir um tesouro fabuloso e tornar-se, assim, de um momento para o outro, o homem mais rico daquelas terras? Ah! Se tal coisa acontecesse, ele seria, então, senhor de um imenso e magnífico palácio... Teria numerosos escravos e, todas as tardes, num grande carro de ouro, tirado por mansos leões, passearia, de seu vagar, sobre as muralhas da Babilônia, cortejando amistosamente os Príncipes ilustres da casa Real.
Assim meditava o bondoso Enedim, divagando por tão longínquas riquezas, quando lhe parou à porta da casa um velho mercador da Grécia, que vendia tapetes, imagens, pedras coloridas e uma infinidade de outros objetos extravagantes tão apreciados pelos Babilônios. Por mera curiosidade, começou Enedim a examinar as bugigangas que o vendedor lhe oferecia, quando descobriu, entre elas, uma espécie de livro de muitas folhas, onde se viam caracteres estranhos e desconhecidos. Era uma preciosidade aquele livro, afirmava o mercador, passando as mãos ásperas pelas barbas que lhe caiam sobre o peito, e custava apenas três dinares. Três dinares. Era muito dinheiro para o pobre alfaiate. Para possuir um objeto tão curioso e raro, Enedim seria capaz de gastar até os dois últimos dinares que possuía.
- Está bem - concordou o mercador - fica-lhe o livro por dois dinares, mas esteja certo de que lhe foi de graça!
Afastou-se o vendedor e Enedim tratou, sem demora, de examinar cuidadosamente a preciosidade que havia adquirido. Qual não foi a sua surpresa quando conseguiu decifrar, na primeira página, a seguinte legenda, escrita em complicados caracteres caldaicos: "O segredo do tesouro de Bresa". Por Deus! Aquele livro maravilhoso, cheio de mistério, ensinava, com certeza, onde se encontrava algum tesouro fabuloso! O TESOURO DE BRESA! Mas, que tesouro seria esse? Enedim recordava-se vagamente, de já ter ouvido qualquer referência a ele. Mas quando? Onde? E com o coração a bater descompassadamente, decifrou ainda: "O tesouro de Bresa, enterrado pelo gênio do mesmo nome entre as montanhas do Harbatol, foi ali esquecido, e ali se acha ainda, até que algum homem esforçado venha a encontrá-lo".
Harbatol? Que montanhas seriam essas que encerravam todo o ouro fabuloso de um gênio? E o esforçado alfaiate, dispôs-se a decifrar todas as páginas daquele livro, e ver se atinava, custasse o que custasse, com o segredo de Bresa, para apoderar-se do tesouro imenso que o capricho de seu possuidor fizera enterrar nalguma gruta perdida entre as montanhas. As primeiras páginas eram escritas em caracteres de vários povos. Enedim foi obrigado a estudar os hieróglifos egípcios, a língua dos gregos, os dialetos persas, o complicado idioma dos judeus.
Ao fim de três anos, deixava Enedim a antiga profissão de alfaiate, e passava a ser o intérprete do Rei, pois na cidade não havia quem soubesse tantos idiomas estrangeiros. O cargo de intérprete do Rei era bem rendoso. Ganhava Enedim, cem dinares por dia; ademais morava numa grande casa, tinha muitos criados e todos os nobres da corte o saudavam respeitosamente.
Não desistiu, porém, o esforçado Enedim, de descobrir o grande mistério de Bresa. Continuando a ler o livro encantado, encontrou várias páginas cheias de cálculos, números e figuras. E, a fim de ir compreendendo o que lia, foi obrigado a estudar Matemática com calculistas da cidade, tornando-se, ao cabo de pouco tempo, grande conhecedor das complicadas transformações aritméticas. Graças a esses novos conhecimentos adquiridos, pode Enedim calcular, desenhar e construir uma grande ponte sobre o Eufrates; esse trabalho agradou tanto ao Rei, que o monarca resolveu nomear Enedim para exercer o cargo de Prefeito. O amigo e humilde alfaiate passava, assim, a ser um dos homens mais notáveis da cidade. Ativo e sempre empenhado em desvendar o segredo do tal livro, foi compelido a estudar profundamente as leis, os princípios religiosos de seu país e os do povo caldeu; com o auxilio desses novos conhecimentos, conseguiu Enedim dirimir uma velha pendência entre os doutores.
- É um grande homem o Enedim! - declarou o Rei quando soube do fato - Vou nomeá-lo Primeiro Ministro. E assim fez. Foi o nosso esforçado herói, ocupar o elevado cargo de Primeiro Ministro.
Vivia, então, num suntuoso palácio, perto do jardim Real, tinha muitos criados e recebia visitas dos príncipes mais poderosos do mundo. Graças ao trabalho e ao grande saber de Enedim, o reino progrediu rapidamente e a cidade ficou repleta de estrangeiros; ergueram-se grandes palácios, várias estradas se construíram para ligar Babilônia às cidades vizinhas. Enedim era o homem mais notável do seu tempo. Ganhava diariamente mais de mil moedas de ouro, e tinha em seu palácio de mármore e pedrarias, caixas cheias de jóias riquíssimas, e de pérolas de valor incalculável. Mas - coisa interessante! - Enedim não conhecia ainda o segredo do livro de Bresa, embora lhe tivesse lido e relido todas as páginas! Como poderia penetrar naquele mistério?
E um dia, cavaqueando com um venerando sacerdote, teve a ocasião de referir-se à incógnita que o atormentava. Riu-se o bom religioso, ao ouvir a ingênua confissão do grande vizir, e, afeito a decifrar os maiores enigmas da vida, assim falou:
- "O tesouro de Bresa já está em vosso poder, meu senhor. Graças ao livro misterioso é que adquiristes um grande saber, e esse saber vos proporcionou os invejáveis bens que já possuis". Bresa significa "saber". Harbatol quer dizer "trabalho". Com estudo e trabalho pode o homem conquistar tesouros maiores do que os que se ocultam no seio da terra ou sob os abismos do mar!
Tinha razão o esclarecido sacerdote. Bresa, o gênio, guarda realmente um tesouro valiosíssimo, que qualquer pessoa, esforçada e inteligente pode conseguir; essa riqueza prodigiosa não se acha, porém perdida no seio da terra nem nas profundezas dos mares; Encontra-la-eis, sim, nos bons livros, nos estudos, na dedicação ao trabalho, que proporcionando saber às pessoas, abrem, para aqueles que se dedicam, as portas maravilhosas de mil tesouros encantados!
Fonte: Com base nas pp. 43/49 do livro "Os Melhores Contos, de Malba Tahan".

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Quando

Quando o mundo gira e permaneço inerte
Quando a mudança passa e permaneço a mesma
Quando teu sorriso corroí minha íris
Quando um adeus se torna um bálsamo inexistente
Quando me sinto um Pigmalião sem Galateia
Quando me sinto pobre e um reflexo insiste em mostrar Midas
Quando a pena de Morfeu não me leva a um derradeiro sonho
Quando a esfinge me dirige um sorriso
Quando minh'alma álgida aquece
Quando por caminhos infames me encontro
Quando a necrose da carne ressoa vida...

O Hóspede - Castro Alves

O Hóspede


Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando tu fores
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
TEÓFILO BRAGA


Onde vais estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...
'Pálido moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.
'Uma buzina restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.
'Entraste! A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante,
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!
'Onde vais, estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.
'Queres voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.
'Não partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!
'Teu cavalo nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos,
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.
'Onde vais, belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem, na guitarra que suspira e chora,
Há de cantar-te seu amor selvagem?
'A choça do desterro é nua e frial
O caminho do exílio é só de abrolhosl
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos?...
'Estranho moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balças de cheirosos lises,
A esposa que tua alma assim procura?
'Talvez tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana,
E aqui só tens uma guitarra e um beija,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serrana!...'
No entanto Ele partiu!... Seu volto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...

Nana - Kuroi Namida



Lágrima Negra

Não consigo mais contar as noites que desejei que o amanhã não chegasse
Perdi meus sonhos e meu amor, molhados pela chuva
Estou chorando, chorando, chorando, chorando

Para ser capaz de viver como eu sou, sem fingir
Do que eu preciso?
Sem poder acreditar em mim mesma, em que devo acreditar?
A resposta está tão perto que não enxergo

Derramo lágrimas negras
Eu não tenho nada, é triste demais
Não consigo colocar em palavras
Meu corpo todo começa a doer
Não consigo suportar ficar sozinha

O rosto que desenhei de madrugada, cansada de chorar, é um rosto meu que não é meu
Esconder minha fraqueza e e fingir um sorriso,
Preciso parar, parar, parar, parar

Seria a coisa mais difícil do mundo
Viver sem fingir?
Se for para ter algo de você, prefiro algo intangível
Não quero mais nada que se quebre

Mesmo que eu grite e chore lágrimas negras
Por favor que venha um amanhã despreocupado
Se for pra continuar nesses dias
Batendo na mesma dor
Quero sumir
Mesmo sabendo que isso é egoísta

Derramo lágrimas negras
Eu não tenho nada, é triste demais
Não consigo nem dizer em palavras
Meu corpo todo começa a doer

Por mais que eu grite e chore lágrimas negras
Por favor que venha um amanhã despreocupado
Se for pra continuar nesses dias
Batendo na mesma dor
Quero sumir
Mesmo sabendo que isso é egoísta*
*http://letras.mus.br/nana/1060075/traducao.html

domingo, 25 de janeiro de 2015

A onde vai a Lágrima - Auta de Souza

A onde vai a Lágrima


Na terra se chora tanto  
Que, se Deus guardasse o pranto  
Que o mundo inteiro derrama.  
Dos astros lá do infinito  
O choro do pobre aflito  
Podia apagar a chama. 


Mas todo o pranto que desce  
Por nossa face, parece  
Que Deus o transforma em prece ...  
E a prece, cheiroso incenso,  
Nas asas do vento imenso,  
Se perde no azul dos céus  
Buscando o seio de Deus.

Inverno - Adriana Calcanhoto


No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião 
Se espelhar no seu olhar até sumir

De lá pra cá não sei 
Caminho ao longo do canal 
Faço longas cartas pra ninguém 
E o inverno no Leblon é quase glacial

Há algo que jamais se esclareceu
Onde foi exatamente que larguei 
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
no deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim 
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois 
pouco antes do ocidente se assombrar.

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião 
Se espelhar no seu olhar até sumir

De lá pra cá não sei 
Caminho ao longo do canal 
Faço longas cartas pra ninguém 
E o inverno no Leblon é quase glacial

Há algo que jamais se esclareceu 
Onde foi exatamente que larguei 
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei

Lá mesmo esqueci que o destino
Sempre me quis só
no deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim 
Só quer me lembrar
Que um dia o céu 
reuniu-se à terra um instante por nós dois 
pouco antes do ocidente se assombrar.

Não sei o que em mim 
Só quer me lembrar
Que um dia o céu 
reuniu-se à terra um instante por nós dois 
pouco antes do ocidente se assombrar.

Não sei o que em mim 
Só quer me lembrar
Que um dia o céu 
reuniu-se à terra um instante por nós dois 
pouco antes do ocidente se assombrar.

No dia em que fui mais feliz...

Link: http://www.vagalume.com.br/adriana-calcanhoto/inverno.html#ixzz3PeUWi73x

Gomorra - Roberto Saviano


"Não permitamos, homens, que nossas terras se tornem lugares da Camorra, que se tornem uma única grande Gomorra a destruir! Não permitamos que homens da Camorra - não animais e homens como todos - encontrem aqui uma energia ilícita para aquilo que alhures é lícito, não permitamos que o que lá se constrói aqui seja destruído. Criai o deserto entorno de vossas casas, não coloqueis entre o que sois e o que quereis somente a vossa vontade absoluta. Lembrai-vos. Então o SENHOR fez chover enxofre e fogo do céu sobre Sodoma e Gomorra. Ele destruiu aquela cidades, toda a planície, todos os habitantes das cidades e tudo quanto crescia naquele solo. Mas a mulher de Lot virou-se para olhar e tornou-se uma estátua de sal (Gênesis, 19,12 - 29). Devemos arriscar a tornar-nos sal, devemos nos virar e olhar o que está acontecendo, o que se abate sobre Gomorra, a destruição total onde a vida é adicionada ou subtraída das vossas operações econômicas. Não vedes que esta terra é Gomorra, não vedes? (...) Morre-se por um sim e por um não, entrega-se a vida por uma ordem e uma escolha de um qualquer, cumpris penas de dezenas de anos para alcançar um poder sobre a vida e a morte, ganhais montanhas de dinheiro que investireis em casas que não habitareis, em bancos que nunca entrareis, em restaurantes que não serão vossos, em empresas que não dirigireis, comandais um poder sobre a vida e a morte procurando um domínio que consumireis escondidos debaixo da terra, com guarda-costas por todos os lados "*

*Trecho do livro Gomorra.